Enoturismo na Campanha Gaúcha: roteiro de cinco dias regado a vinho, churrasco e observação de estrelas

Campanha Gaúcha: colada à fronteira do Uruguai, voltada à agropecuária, onde o português se mistura com o espanhol e as tradições gaúchas são preservadas.

Não era nem dez da manhã. Pela janela da van, o pampa surgia imenso, com seu horizonte infinito, plantações extensas e o gado criado praticamente solto. A paisagem era exatamente aquela que, por muito tempo, compôs o mais fiel retrato da Campanha Gaúcha: uma extensa faixa de terra colada à fronteira do Uruguai, voltada à agropecuária, onde o português se mistura com o espanhol e as tradições têm força como em, talvez, nenhum outro canto do Rio Grande do Sul.

O que me levava à extrema fronteira sul do Brasil no fim do verão de 2019 era, no entanto, uma novidade: o crescimento da região como um promissor polo vitivinicultor, que está agora também investindo no enoturismo. Responsável por 15% da produção de vinho no país, a Campanha Gaúcha está atrás apenas da Serra Gaúcha – e tem uma vantagem: condições de terreno (plano e pedregoso) e clima (amplitude térmica, com dias quentes, noites frescas e raras chuvas durante o verão) muito mais favoráveis para os vinhedos.

Era por isso que, nem dez da manhã, e lá estava eu, tomando vinho com canudinho no sacolejo da van. O destino era a primeira das oito vinícolas que eu visitaria em cinco dias. Um roteiro que começou bem, e terminou melhor ainda. Divido com vocês a seguir.

A rota dos vinhos da Campanha Gaúcha

No mapa abaixo dá pra ter uma ideia do quão espalhada é a Campanha Gaúcha – e o quão dispersas ficam as vinícolas umas das outras. Em resumo: você vai precisar de carro, van, ônibus, a depender do tamanho do grupo que viaja com você. Quando fui, à convite do Instituto Brasileiro do Vinho e do Sebrae, peguei um voo da Azul de Porto Alegre até Uruguaiana, na fronteira com a Argentina. Depois disso, a programação seguiu por mais mil quilômetros de estrada em uma van. Dessa maneira:

Dia 1 – Chegada em Uruguaiana, visita à vinícola Campos de Cima (Itaqui).
Dia 2 – Visita às vinícolas Pueblo Pampeiro, Cordilheira de Santana e Almadén, (todas em Santana do Livramento).
Dia 3 – Visita às vinícolas Guatambu (Dom Pedrito) e Estância Paraízo (Bagé).
Dia 4 – Visita à fábrica de azeite Batalha (Pinheiro Machado) e às vinícolas Batalha Vinhas & Vinhos (Candiota) e Peruzzo (Bagé).
Dia 5 – Retorno a Porto Alegre com almoço na Vineria 1976.

As distâncias na Campanha são muito maiores do que os poucos metros que separam uma vinícola e outra em Bento Gonçalves e demais municípios da Serra Gaúcha. Mas percorrer quilômetros de pasto onde gado é criado solto, um cenário que se intercala cada vez mais com parreiras e oliveiras, é de fato muito agradável. E instigante: é possível ver casas de arquitetura colonial espanhola bem conservadas (outras nem tanto), homens à cavalo devidamente pilchados e muito da cultura bem característica do Pampa Gaúcho.

É uma viagem, no entanto, que exige planejamento, já que o enoturismo por ali está apenas começando e não há empresas que façam o roteiro. Como a ideia é provar vinhos, será necessário contratar um transporte com motorista, organizar todo o roteiro e agendar as visitas às vinícolas (de preferência combinando refeições naquelas que oferecem almoço ou jantar). Diferentemente do Vale dos Vinhedos, onde o circuito está pronto e há diversos passeios já conhecidos que podem ser feito, por ali, por enquanto, cada viajante deverá desbravar a região conforme o que mais lhe interessar.

E aí está parte da graça. Para ajudar você a planejar um roteiro por lá, seguem as vinícolas e lugares que visitamos:

Vinícola Campos de Cima

Dos 700 hectares da família Ayub, 15 são destinados à produção de uva. São as três mulheres da família, a mãe Hortência e as filhas Manuela e Vanessa, que tocam a vinícola boutique, especializada em vinhos finos. A visita à propriedade inclui um passei o por todo o processo de produção, degustação dos rótulos e, se calhar, almoços e jantares – que podem inclusive ser servidos na área externa da vinícola. Quando estivemos por lá, fomos recebidos no entardecer com um belo assado de fogo de chão ao som de músicas gauchescas.

Vinícola Pueblo Pampeiro

Uma percurso de estrada de chão de cerca de 20 quilômetros liga a BR-158 à vinícola Vila Pampeiro, na área rural de Santana do Livramento. O que se encontra ali é cara do pampa gaúcho: uma mistura entre o Brasil e o Uruguai. E começa pelos próprios donos. Foram dois uruguaios e um brasileiro que, em 2014, começaram a produção dos vinhos. E tudo ficou em portunhol, do nome da vinícola aos rótulos dos produtos.

A ideia é oferecer ao visitante uma experiência rural associada à prova dos vinhos, principalmente os licorosos, que ganham destaque na produção. O parreiral está ao lado de um extenso gramado verde, onde mesas recebem grupos para almoços, jantares e degustação dos rótulos da casa. Aliás, natureza ali não falta: dá para curtir a flora nativa, fazer trilhas, banhar-se em lagoas e conhecer diferentes tipos de pássaros e outros animais. Depois de um longo dia entre taças e natureza, os mais aventureiros podem acampar no gramado da vinícola, e os que preferem um repouso mais confortável, hospedar-se na aconchegante casa colonial da propriedade.

Para visitar a Vila Pampeiro é preciso agendar com antecedência pelo telefone (55) 3244-1390. Quem preferir, pode contar com uma carona entre o hotel e a propriedade. A vinícola serve almoços (deliciosas massas e molhos, tudo caseirinho) sob agendamento e também hospedagem. O pernoite na casa colonial com refeição fica em torno de R$ 250 por pessoa.

Vinícola Cordilheira de Sant’Ana

Cordilheira de Sant’Ana surgiu em 2004 como um projeto de aposentadoria do casal de enólogos Rosana Wagner (foto abaixo) e Gladistão Omizzolo, após terem trabalhado em algumas das maiores vinícolas brasileiras. Dos 20 hectares de parreiras de castas sortidas (entre elas, Cabernet Sauvignon, Merlot, Touriga Nacional, Pinot Noir e Chardonnay), são produzidas 5 mil garrafas por ano.

A visita à vinícola dura cerca de uma hora, custa R$ 20 por pessoa. No passeio estão inclusos a ida à cave e a degustação de três rótulos da casa. Além de, claro, uma bela vista da varanda da construção em pedra para o Cerro de Palomas e o parreiral da propriedade. No verão, o funcionamento é das 10h às 18h. E, no inverno, das 9h às 17h. É recomendado o agendamento prévio.

Vinícola Almadén

Quem já passeou pelas gôndolas de vinhos em um supermercado provavelmente já leu Almadén em algum rótulo. Não à toa: com 450 hectares de plantação, a vinícola tem o maior vinhedo do Brasil. Soma-se isso a produção de 10 toneladas de uva por hectare, o pioneirismo na colheita mecânica e o objetivo de produzir vinhos com custo final entre R$ 20 e R$ 25. A Almadén, do Grupo Miolo, é gigante em todos os sentidos.

A visita à vinícola é gratuita e passa pelas várias etapas de produção dos vinhos e espumantes – desde o parreiral com horizonte infinito até a os estágios finais de maturação dos produtos. Grupos com mais de 15 pessoas devem agendar a visita no site da Almadén.

Quando estivemos por lá fomos recebidos por um dos enólogos da vinícola. Chegamos de ônibus até um dos pontos mais altos da propriedade e acompanhamos o entardecer em meio aos vinhedos, enquanto máquinas faziam a colheita mecânica. No fim do passeio, um jantar ma-ra-vi-lhoso nos esperava, ao melhor estilo pampeiro: carnes de panela, salada de maionese, feijão tropeiro e várias outras delícias. Se estiver em grupo, vale a pena questionar a possibilidade de fazer alguma refeição na vinícola. Vale muito a pena.

Vinícola Guatambu

A Guatambu é uma das mais famosas vinícolas da Campanha Gaúcha e uma das mais preparadas para receber visitantes, que chegam ao número de 5 mil ao ano. Quando estivemos por lá, pudemos constatar: carros chegavam a todo momento, grupos de visitantes faziam os passeios guiados de uma hora pelo vinhedo e caves de produção dos vinhos, passeavam de carroça, crianças avistavam cavalos e bois e muitos almoçavam no recomendadíssimo restaurante da vinícola.

Vinícola Estância Paraízo

Em Bagé existe uma propriedade que se chama Estância Paraízo. E não é difícil entender o porquê. Quando chegamos lá, no fim de tarde, o céu se coloria em tonz de azul e alaranjado e o horizonte dos campos parecia infinito. Foi numa penumbra mais charmosa do que assustadora que fizemos a primeira parada de um passeio cheio de surpresas: uma capela de 1916 onde está enterrado o tataravô de Victoria e Thomaz, que nos receberam e contaram um pouco sobre a história da família e da propriedade.

Então seguimos para a “sede” da propriedade: um extenso gramado verde, com duas casas ao fundo. Em uma delas, um galpão açoriano em pedras, era preparado o cardápio da noite: um saborosíssimo de um hambúrguer na brasa. À frente da construção, mesas decoradas com toalhas coloridas e luzes penduradas por entre os galhos das árvores tornavam o clima todo ainda mais agradável. Teve queijos e embutidos produzidos na região, muito vinhos – é óbvio – e, por fim, uma cerejinha no bolo. Acompanhados de astrônomos do Planetário da Unipampa (Universidade Federal do Pampa), observamos constelações, nebulosas, planetas, detalhes da lua e detalhes espetaculares da Via Láctea que só conseguimos admirar quando distantes das luzes da cidade. Tudo isso com vinho. Pensa!

As visitas à propriedade ocorrem sob agendamento, com valores a serem definidos conforme o jantar e a possibilidade de fazer a observação das estrelas.

Azeite Batalha

E já que se está na Campanha Gaúcha, por que não fazer uma breve pausa nos vinhos e conhecer também a produção de azeites de oliva? Um dos nomes mais expoentes da olivicultura no Rio Grande do Sul é o Azeite Batalha, projeto do paulista Luiz Eduardo Batalha, que começou em 2010 e hoje já soma 400 hectares de olivais.

Quando estivemos na Batalha pudemos acompanhar todo o processo de produção do azeite de oliva: da colheita mecanizada no campo até a extração do óleo das azeitonas. Claro, no fim, também fizemos uma degustação de três rótulos da casa e almoçamos na propriedade. Para agendar visita, entre em contato com a Batalha por telefone ou site.

Batalha Vinhas & Vinhos + Vinícola Peruzzo

Seguindo o roteiro dos vinhos, não muito distante das propriedade do Azeite Batalha, são duas as opções de vinícolas que recebem visitantes: a Batalha Vinhas & Vinhos (Candiota) e a Peruzzo (Bagé). Na Batalha, passamos uma agradável tarde conhecendo as instalações da vinícola e provando diversos rótulos sob as árvores da vinícola.

Na vinícola Peruzzo, fomos recebidos em um pelo pôr do sol, com apresentação de dança tradicionalista, visita à cave, prova de vinhos e um delicioso jantar. A vinícola está aberta para visitas de segunda à sexta, entre 10h e 15h. Nos finais de semana e feriados, o agendamento pode ser feito pelo telefone (53) 99971-6113.

E você, já esteve na Campanha Gaúcha? Conheceu alguma vinícola por lá? Tem vontade? Deixe suas impressões e opiniões nos comentários!

Fonte: https://www.melhoresdestinos.com.br/

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