Circuito turístico alternativo desbrava segredos de Buenos Aires

Passeios para fugir do óbvio

Buenos Aires tem um circuito turístico que vai além da Casa Rosada , do Caminito e da Bombonera . A metrópole tem muitas preciosidades praticamente escondidas, que passariam despercebidas para os turistas mais desatentos. A seguir, um pequeno guia alternativo, para quem deseja ir além do óbvio na capital argentina.

Uma das pérolas “secretas” está bem no Centro da cidade , entre a Avenida Nove de Julho e o Congresso Nacional — portanto, às vistas da maioria dos visitantes que batem perna pela região histórica. No entanto, o Palácio Barolo, na Avenida de Mayo, 1370, perde-se em meio aos demais edifícios do coração da cidade.

Mas nem sempre foi assim: fundado em 1923, o prédio era o arranha-céus mais alto da América Latina à época, com 100 metros de altura, e se destacava no meio da multidão. No entanto, o que faz o prédio ser tão especial, além da vista — uma das mais lindas da cidade —, é que sua arquitetura conta uma história.

O prédio foi pensado por seu dono, o empresário têxtil italiano Luis Barolo, para abrigar as cinzas de seu conterrâneo Dante Alighieri. Barolo sonhava transportar os restos mortais do maior poeta de seu país para a Argentina por conta das guerras que assombravam a Europa. Assim, encomendou ao arquiteto Mario Palanti — também imigrante italiano — que construísse um prédio em que cada detalhe remetesse à maior obra de Alighieri, o poema épico “A Divina Comédia”. As cinzas do poeta, entretanto, nunca chegaram à Argentina.

Palanti fez exatamente como Barolo mandou: construiu um prédio que emulou a estrutura da obra, em que Dante realiza uma jornada espiritual por inferno, purgatório e paraíso para encontrar sua amada Beatriz. Os primeiros pisos, mais próximos ao chão, têm elementos que remetem ao inferno, como esculturas de bestas que “seguram” as pilastras. A medida que se chega nos andares mais altos, a decoração vai ficando mais minimalista. A cúpula do edifício é inspirada num templo hindu em homenagem ao amor — símbolo da união de Dante e Beatriz. No último andar da construção — que tem 100 metros, número de cantos da Divina Comédia, e 22 pisos, número de estrofes da obra —, um farol representa o paraíso.

Há visitas guiadas pelo prédio — declarado, em 1997, monumento histórico pelo governo argentino — todas as segundas, quartas, quintas, sextas e sábados (mais informações em www.palaciobarolotours.com). O final do tour é recompensador: há um bar no 16º andar, onde é possível comprar uma bebida e bater papo com uma vista estonteante da cidade. É recomendável fazer o passeio em horários perto do pôr do sol, em dias sem nuvens. O visual é inesquecível.

Outra atração de Buenos Aires pouco explorada por turistas que visitam a cidades são os bosques de Palermo, 40 hectares de parques perfeitos para passear de bicicleta, fazer piqueniques, ou simplesmente relaxar lendo ao sol. A área fica a apenas seis quarteirões de Palermo-Soho, a região descolada do bairro.

No complexo de parques, os destaques são o jardim japonês — com direito a plantas típicas do país, pontes e lagos de carpas — e o rosedal, com mais de dez mil rosas. Os parques têm três lagos em sua extensão — onde se pode andar de pedalinho — e têm diversos ambientes decorados com pontes, fontes e edificações pelo paisagista francês Carlos Thays. Nos fins de semana de sol, o local costuma ficar cheio.

A área verde também foi palco de importantes capítulos da história argentina. Em 1836, o terreno foi comprado pelo governador da província de Buenos Aires Juan Manuel de Rosas, que construiu ali sua casa e a sede de seu governo. Após a destituição de Rosas do poder — com a Guerra do Prata, que teve a participação do Brasil —, o local virou terreno público. No lugar da residência, o presidente argentino Domingo F. Sarmiento, inspirado no Central Park, decidiu que ali seriam construídos bosques, batizados posteriormente de “pulmões da cidade”.

Museus guardam preciosidades de pintores latinos

Instalação no Museu de Arte Moderna, reaberto há um ano Foto: Rafael Soares
Instalação no Museu de Arte Moderna, reaberto há um ano Foto: Rafael Soare

Poucos sabem, mas Buenos Aires é a meca da arte moderna na América Latina. A cidade tem dois museus que abrigam algumas das maiores preciosidades produzidas por artistas da região no século XX. No Museu de Arte Moderna, o acervo permanente propõe um panorama por cada uma das décadas do período. Já o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, o Malba, é uma referência mundial da produção da região e tem, em sua coleção, a tela mais valiosa da arte brasileira.

O Moderno, como é conhecido, fica em San Telmo, bairro histórico e boêmio na região central da cidade, e foi reinaugurado há apenas um ano. Após 62 anos de história, ele finalmente abriu todo o espaço de sua sede à visitação do público. A remodelagem do prédio começou em 2005, teve duas fases e só ficou completamente pronta em julho do ano passado. Além de salas mais amplas, agora o museu tem em seu interior uma filial da Café Z, uma cafeteria que vende um produto proveniente de Honduras. Vale a pena provar o expresso, mais doce e suave do que o produzido no Brasil.

Entre os destaques da coleção do museu estão obras dos dois maiores pintores argentinos do século XX: Antonio Berni, considerado o maior modernista argentino, e León Ferrari, conhecido por suas obras antirreligiosas e anti-ditatoriais que o tornaram desafeto do papa Francisco quando ainda era arcebispo em Buenos Aires. A entrada custa R$ 5 (às quartas-feiras, é grátis), e o museu só não abre às terças-feiras.

Já o Malba reúne em seu acervo obras dos mexicanos Frida Kahlo, Diego Rivera e do uruguaio Joaquín Torres-García. No entanto, a maior preciosidade do museu, colocada em posição de destaque, é uma pintura brasileira: o “Abaporu”, de Tarsila do Amaral. A tela foi arrematada em 1995 num leilão pelo empresário argentino Eduardo Constantini. À época, ele pagou US$ 1,35 milhão. Seis anos depois, Constantini fundaria o Malba e ali abrigaria a joia.

Hoje, segundo especialistas, a tela está avaliada em mais de US$ 100 milhões — valor nunca pago por uma pintura feita por um brasileiro. Várias ofertas foram feitas a Constantini para que a obra fosse repatriada. O argentino recusou todas e diz que ele não está à venda.

No entanto, até o próximo dia 28 de julho, o quadro não estará em exposição em Buenos Aires. É que ele foi cedido temporariamente para o Museu de Arte de São Paulo, que montou uma exposição sobre a obra da modernista. Em agosto, a tela, de 85 por 73 centímetros, voltará a Buenos Aires.

Serviço

Onde comer

Chila Restaurant. De terça a domingo, das 20h às 23h. chilarestaurant.com

Niño Gordo. De terça a domingo, das 20h às 23h. ninogordo.meitr.com

Nicky Harrison. De terça a sábado, a partir das 22h. nickynysushi.com

Narda Comedor. De segunda a sábado, das 8h30 às 23h, domingos, das 8h30 às 20h. nardacomedor.com

Gran Dabbang. De segunda a sábado, das 20h à meia-noite. bit.ly/2WDJgog

Passeios

Palacio Barolo. Tours guiados às segundas, quartas, quintas e sábados. palaciobarolo.com.ar

Museo de Arte Moderno. Ingressos por 50 pesos (R$ 4,50). Segundas, quartas, quintas e sextas, das 11h às 19h. Sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h. museomoderno.org

Malba. Ingressos por 170 pesos (R$ 15). De Quinta a segunda, das 12h às 20h. Quartas, das 12h às 21h. malba.org.ar

Onde ficar

Grand Brizo. Diárias a partir de R$ 300, para casal, com café da manhã. alvarezarguelles.com

5411 Soho. Diárias a partir de R$ 200, para casal, com café da manhã. 5411soho.com

Fonte: https://oglobo.globo.com/boa-viagem

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