A Ilha da Madeira, em Portugal, é a Terrinha perdida no Atlântico

Bem-vindo à Noronha portuguesa: praias, calor, surfe, uma mata quase tropical, frutas estranhas, precipícios

Eu desci do avião a crer que três dias seriam suficientes para desbravar a Madeira. Logo descobri que a Madeira não se “faz” em tão pouco tempo. Pense em cinco dias, uma semana. Como ouvi de uma madeirense no desembarque: “Há muita coisa bonita para ver”. De fato. Do precipício do Cabo Girão, pertinho do Funchal, às praias boas para surfe de Jardim do Mar e de Paúl do Mar, o lugar é matador.

Com 57 quilômetros no sentido leste-oeste por 22 no norte-sul, a melhor maneira de conhecer a ilha é com carro alugado – e sem economia de gasolina. A seguir, algumas das delícias que fazem da Madeira um tesouro perdido no Atlântico, tesouro que ainda por cima fala português – mas um português que, às vezes, nem mesmo os portugueses continentais entendem.

A temperatura

Quando deixei Lisboa, de manhãzinha, os termômetros marcavam 8 graus centígrados. Uma hora e pouco depois, o comandante anunciava: “Na Madeira, céu aberto e 17 graus”. Num instante ultrapassamos os 20. Por causa do clima sempre ameno – durante o inverno a média é de 17 graus e, no verão, de 23 -, esse pedaço de terra de rochas negras vulcânicas surge como um paraíso para ingleses, alemães, suecos, suíços… Gente que acaba desfrutando a gorda aposentadoria nesse território quase africano.

O sotaque

Mesmo para quem, como eu, está acostumado ao português de Portugal, ouvir a frase “mais para cima” pronunciada como “maix para saima” é um choque. Eu havia perguntado a um senhor onde ficava o Mercado dos Lavradores, um lugar delicioso no Funchal. Os madeirenses são imbatíveis no S com som de X. Ganham dos portugueses continentais e até dos cariocas da gema (eles só não dizem “féixta”). Aliás, o Funchal lembra vagamente a Cidade Maravilhosa em razão das montanhas na costa e do casario branco que escorrega, aqui poeticamente falando, dos morros.

As frutas exóticas

Há a pera-abacate, o maracujá-banana e também uma espécie de maçã verde escuro chamada anona, que derrete na boca. E também banana, tangerina, laranja… O melhor endereço para experimentar esse festival de delícias inusitadas ou nem tanto é o tal Mercado dos Lavradores (Largo dos Lavradores, Funchal). E, se couber mais uma gulodice, não perca o sanduíche de bife de atum vendido no boteco do mercado. Além de frutas, verduras e peixe fresco, você esbarra em floristas em trajes locais exibindo orquídeas e outras flores lindas cultivadas largamente na Madeira, como estrelícias e proteias. Para completar o shopping list, há barraquinhas de artesãos que vendem artigos de vime.

As nuvens

Na Madeira, as chances de você furar as nuvens são muito altas. Furar de carro, bem entendido. É o que acontece na estrada que contorna o Pico do Areeiro, a 1 810 metros de altitude. O caminho que leva até o cume do vale enevoado começa decorado com enormes pinheiros. À medida que subimos, mais rasteira e agreste fica a paisagem. Começa a fazer frio e, de repente, você vai notar algo estranho nos carros que descem na via contrária – bonecos de neve no capô, com chapeuzinho colorido e outros adornos, por exemplo. Chegando lá no topo, entende-se a piada. No inverno, a temperatura chega a zero grau e tudo fica coberto de gelo. Uma panorâmica de cinema.

O paredão

O Cabo Girão, na vila de Câmara de Lobos, é a mais alta parede rochosa da Europa, com 580 metros. Quem olha verticalmente para baixo vê uma prainha de pedregulhos pretos. Se demorar muito, a visão começa a embaçar e as pernas ficam bambas. Há outros precipícios lendários na ilha. A sudeste, os penhascos da peculiar vila de pescadores Caniçal fizeram Gregory Peck enjoar enquanto filmava cenas do clássico Moby Dick.

As trilhas

Chamam-se levadas os engenhosos canais de irrigação construídos heroicamente a partir do século 15, quando a ilha foi descoberta. Os canais totalizam 1 400 quilômetros e criam trilhas mata adentro. Desbravá-las é uma forma diferente de conhecer a Madeira. Há caminhos que exploram paisagens raras, como a Floresta Laurissilva, recheada com a legítima vegetação local, Patrimônio Natural Mundial da Unesco desde 1999. Você pode se aventurar sozinho, com a ajuda de mapas vendidos nas livrarias. Mas o melhor é contratar um guia especializado. A Madeira Explorers (Estrada Monumental, Centro Comercial Monumental Lido, loja 23) tem mais de uma dezena de caminhadas bacanas.

As entranhas

Considere como uma viagem ao centro da Terra. Há cerca de 890 mil anos, uma erupção vulcânica com lava a 1 200 graus cravou caminho entre as rochas da Madeira. É o que mostram as Grutas de São Vicente (Sítio do Pé do Passo, São Vicente), descobertas no século 19 e atração turística desde então. Percorrem-se os enigmáticos túneis na companhia de um especialista. A visita inclui um museu multimídia e um bacana filme em 3D sobre a origem do planeta. Para chegar até a sala de cinema, pega-se um elevador que simula a tal viagem aos subterrâneos do planeta. É diversão garantida para crianças e adultos.

Churchill was here

Reid’s Palace (Estrada Monumental, 139, Funchal) é um suntuoso e very britishhotel que abriu as portas em 1891, erguido sobre uma falésia e virado para o Atlântico. O ex-primeiro-ministro inglês Winston Churchill fazia dele sua segunda casa, e o espaçoso quarto em que costumava se hospedar foi batizado com seu nome. Até hoje esse hotel é um dos preferidos dos milionários. Motivos não faltam: tem um spa completo com tratamentos das marcas Ytsara, Aromatheraphy Associates, LaStone e La Prairie; cinco restaurantes, um deles um salão de gala com lustres de cristal, cortinados, espelhos e mobiliário de época, e um outro com desenhos assinados por Picasso; piscinas exteriores com água do mar aquecida; e paredes de vidro que exibem a linda Baía do Funchal. O tradicional chá da tarde no terraço, ao som de piano de cauda, e o tour guiado pelos 40 mil metros quadrados de jardins exóticos são bons programas. Há gente que não vai à Madeira – vai, isso sim, ao Reid’s Palace. Um mundo à parte.

Estrela, estrela

A acompanhar uma hotelaria luxuosa e de charme, uma gastronomia premiada. O restaurante Il Gallo d’Oro (Estrada Monumental, 147, Funchal) conquistou, em 2008, a venerada estrela Michelin. Na cozinha atua o chef francês Benoît Sinthon, que apresenta pratos de inspiração italiana e mediterrânea, como o duo de linguado com ravióli de tinta de choco, creme de basílico e mexilhões. O restaurante pertence ao sofisticado hotel The Cliff Bay, e você come ao som de piano. Por isso, se aparecer para o jantar, convém caprichar no modelito – os homens devem vestir gravata ou casaco.

E é muito Portugal

A Ilha da Madeira tem vilas (em bom português, aldeias) peculiares que merecem muito uma vista d’olhos. Uma delas é Câmara de Lobos, a oeste de Funchal. Era uma das preferidas de Winston Churchill, que chegou a retratar a paisagem em pinturas. Perto dali fica Ribeira Brava, com cafés à beira-mar. Mais adiante, a charmosinha Ponta do Sol vale pelo casario e pela pracinha acolhedora. Ao norte, Porto Moniz tem piscinas naturais e vistas incríveis, e Santana pede uma fotografia diante das casas com telhado de palha, um ícone da ilha. A leste da capital, Caniçal ostenta a única praia com areia dourada natural de toda a ilha.

O vinho

O célebre fortificado caiu nas graças dos ingleses no século 18, tornando-se mundialmente famoso. Foi com um Madeira que Thomas Jefferson brindou à independência dos Estados Unidos. O vinho é feito com castas únicas – sercial, boal, verdelho, malvasia e tinta negra. A fermentação é interrompida com a adição de aguardente vínica (como no vinho do Porto), e em seguida o néctar envelhece em carvalho americano, sob calor, de cinco a 20 anos. Um bom lugar para degustá-lo é o The Old Blandy Wine (Avenida Arriaga, 28, Funchal). Setembro é o mês da vindima (colheita das uvas), e a festa na Madeira é digna dos arraiais juninos brasileiros.

Sem marra

Por último, mas não menos importante, o filho famoso da terra, o marrento Cristiano Ronaldo, celebridade-mor portuguesa, não é onipresente na Madeira. Pelo contrário. É como se o arquipélago e sua gente já tivessem muito do que se orgulhar – e, para eles, o Ronaldo português, afinal, é só mais um puto (garoto).

Fonte: https://viagemeturismo.abril.com.br

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